O combate ao terrorismo como estratégia política

Postado por Fórum 21 em 01/ago/2016

por Salah H. Khaled Jr. (http://lattes.cnpq.br/6155872393221444)

O país está atravessando um período político conturbado, com ruptura da legalidade democrática e disseminação irrestrita de uma cultura de cerceamento de direitos fundamentais e liberdades civis.  É neste contexto que o “combate ao terror” emerge como questão de grande interesse estatal, o que coincide com a grave crise de legitimidade que o governo interino enfrenta. Isso não é por acaso. Nada consegue unir de forma tão satisfatória um todo heterogêneo do que um inimigo.  Se ele não existe, pode ser convenientemente “inventado”. A estratégia não é nova. O cenário é relativamente semelhante ao do atentado que resultou na destruição das torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Naquele contexto, um presidente com baixa credibilidade – George W. Bush – empregou o discurso de combate ao inimigo para obter a adesão subjetiva da nação, com grande sucesso. A Guerra ao Terror alavancou rapidamente a sua popularidade e inclusive garantiu sua reeleição, o que parecia absolutamente improvável até então. Logicamente, existem diferenças significativas: no caso de Bush, a contagem de votos da eleição foi suspeita, enquanto no Brasil testemunhamos um golpe com verniz de legalidade, vendido como impeachment para a população. Mas o mais significativo é que não houve nenhum ato terrorista – ou supostamente terrorista – no país, o que faz da tentativa de apropriação simbólica do capital político que representa o combate ao terror algo sui generis, para dizer o mínimo.

Salvo melhor juízo, não existe nenhum indício de que o Brasil repentinamente tenha se tornado alvo de potenciais atentados.  Tudo indica que a questão tem muito mais relação com o impacto simbólico do combate ao terror (e como ele potencialmente pode  justificar práticas autoritárias e até mesmo fascistas) do que com qualquer intenção real de garantir a segurança do país.

É lógico que a realização dos Jogos Olímpicos no Brasil sugere que as autoridades estejam alertas.  Não tenho dúvida de que é uma oportunidade sedutora para um atentado. Mas o que não podemos fazer é colocar em questão limites ao exercício do poder punitivo que são essenciais para a democracia em nome da remota possibilidade de que algo aconteça.  O recente episódio da “célula amadora” é absolutamente preocupante, já que é impensável que as condutas em questão possam ser consideradas como atos preparatórios. A própria palavra já indica que são atos voltados para a preparação e posterior execução de um plano. Se não havia qualquer plano para a realização de um ato terrorista, como pode haver ato preparatório para o que não existe?

É assustadora a possibilidade de que o episódio possa de qualquer modo contribuir para iniciativas de maior fôlego contra o terrorismo,  como se de fato uma ameaça tivesse sido descoberta.  Estão confundindo – talvez de forma proposital – o real com o imaginário.  E isso inclusive é perigoso para todos nós. O país jamais foi alvo de qualquer ação terrorista e sua política externa nas últimas décadas contribuiu de forma significativa para garantir que fosse assim. Transformando o combate ao terrorismo em cruzada contra sombras e fazendo dele um espetáculo para obter ganhos políticos, podem inadvertidamente estar produzindo algo oposto ao que sustentam: colocando o Brasil no mapa do Terror.

Categorias: Notícias

Galeria de Imagens

Contato

Telefone São Paulo:
11 3371-6380, 11 3371-6381

E-Mail São Paulo: forum21.org.br@gmail.com

E-Mail Porto Alegre: forum21.poa.org.br@gmail.com

E-Mail Brasília: forum21.bsb.org.br@gmail.com